18 de junho de 2007

Algumas palavras sobre a minha viagem...

Leitoras e leitores,
finalizando as contribuições e observações sobre a intercâmbio entre jovens camponeses e jovens quilombolas e de periferia, no Rio de Janeiro, escrevo a minha vivência.
Abraços, Vânia Tatiane




Intercâmbio e socialização da pesquisa efeito das ações juvenis para superação da violência na região do Submédio São Francisco foi realizada em 2005 entre os dias 15 a 22 de maio de 2007.

O que espero dessa experiência?


Sinto-me otimista e apesar do cansaço, espero atingir os objetivos propostos de socializar a pesquisa. Também por estar conhecendo a cidade Rio de Janeiro, estar multiplicando a experiência que tivemos no Submedio São Francisco (SMSF) e expandindo também para as universidades daqui do Rio de Janeiro. Espero aprender com eles e ver de que forma eles percebem a nossa realidade; as dúvidas e curiosidades, trocar experiências e perceber “o que é de fato” é morar na favela, no centro da cidade e no subúrbio. E ainda ser universitário no Rio de Janeiro. Pretendo repassar esse intercâmbio para o coletivo do Pólo Sindical do Trabalhadores Rurais do Submedio São Francisco, no qual eu faço parte como jovem do município de Jatobá (PE) e para a direção do Pólo. E, se possível, em outros espaços da região do SMSF.

Viajamos pela primeira vez de avião. Uma experiência única para Jocivaldo e eu. Apesar da ansiedade, para mim foi tranqüilo andar entre e acima das nuvens. Adorei voar, senti um pouco de medo no início, mas depois fiquei calma.

O interessante foi o medo de Jocivaldo, quando eu mostrava a natureza lá em baixo, sua mão suava demasiadamente e ele começava a refletir que nada nos segurava. Num primeiro instante achei à cidade maravilhosa com suas praias e paisagens...

Fomos, assim que chegamos, para a casa do Atílio (coordenador do Programa TRD de KOINONIA) e Raquel. Eles são muito divertido e pude rever seus filhos: Atílio Luca e Maria Sol. E ainda pude conhecera mãe de Priscila (Assistente do Programa TRD), que se chama Neide.

A primeira apresentação dos resultados da Pesquisa "Ações Juvenis para Superação da Violência na região do Submédio São Francisco" na favela da Maré no Observatório de Favelas.

No primeiro momento, cada participante, se apresentou brevemente. Neste momento, estava tranqüila, mas um pouco ansiosa e comecei a apresentar a pesquisa.

Falamos o que era a região do Polígono da Maconha, sobre o Pólo Sindical e o Coletivo de Jovens e as atividades que desenvolvemos com a juventude. E depois começamos a apresentar os resultados da pesquisa. E após a apresentação tivemos espaço para perguntas e troca de experiências.

Percebi que as perguntas deles eram sobre a região, mas comparando sempre com a violência da favela. Não achavam que no Submedio São Francisco também tem violência. As perguntas eram mais dirigidas para o plantio de maconha devido a proximidade do tráfico. Sabem que alguém plantou e colheu, mas não sabia que também é proibido plantar. E ainda ouvimos os relatos dos jovens e de como é morar na favela.

A experiência de ter estado com jovens da favela de maré foi impressionante. No inicio estava tranqüila, mas depois de alguns depoimentos me senti intimidada. Pensei que, a qualquer momento, poderia haver um tiroteio e eu estava lá. Fiquei mais tranqüila quando saí viva da favela.

Foi um momento, de troca de experiência, saber um pouco mais sobre a violência por aqueles que vivem o dia-a-dia e ver não só o lado ruim que a mídia mostra a violência como única coisa que existe na favela, mas também esses espaços alternativos de vivência, educação. O Observatório que busca trazer alternativas para o povo da favela. Foi importante repassar nessa experiência e mostrar que a droga que tanto ouvem, aqui no Rio, saem de algum lugar. E que este lugar também é violento e as alternativas por parte do governo são poucas. Perceber que a violência na região onde vivemos tem um alto índice que não percebemos.

No mesmo dia, estivemos na faculdade Estácio de Sá e apresentamos o resultado da pesquisa para a turma de pedagogia. Fizemos uma introdução e apresentamos a pesquisa. Percebi que os estudantes tinham preocupação com o índice de violência e como superá-la. As perguntas direcionadas para a reflexão dos resultados.

E teve destaque a questão que as pessoas responderam sobre a culpa de haver violência na região e que os entrevistaram se responsabilizaram pela violência. Nós não refletimos sobre essa questão e alguns outros resultados. Eles se preocuparam mais com a superação.

Noutro dia fomos para o PROFEC (Programa de Formação e Educação Comunitária). O PROFEC é uma ONG na periferia da cidade de Duque de Caxias no Rio de Janeiro. Existem vários projetos: balé, aulas de violão, informática, trabalho com o ecumenismo e etc.

Quando começamos a apresentação, particularmente, me senti um pouco incomodada com alguns risos. Percebi que é o nosso jeito de falar. O novo incomoda. Apresentamos a pesquisa e eles acharam interessante. Tinham uma visão distante de nossa realidade.

Eles falaram que acham à cidade deles violenta e que querem superar a violência. Disseram que era possível, mas é preciso trabalhar para isso. Porém não se sentem protagonistas pra isso. Sentir o interesse deles em conhecer mais nossa região, principalmente quando falamos do Rio São Francisco.

Percebi que tiveram dificuldade em comparar as duas realidades do campo e da cidade. O subúrbio tem potencial e só precisa ser desenvolvido, assim como a favela.

Fomos de Duque de Caxias para Niteroi. E logo que chegamos tivemos uma conversa com os professores: Paulo Carrano e Ana Brenner do
Observatório Jovem Rio, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Apresentamos a pesquisa e falamos das nossas experiências. Eles perguntaram sobre a nossa experiência em fazer essa pesquisa, qual o objetivo. As perguntas eram mais direcionadas ao nosso trabalho com juventude, como: porque de fazermos a pesquisa e sobre a socialização que estamos fazendo. Depois proporam uma entrevista para divulgar o resultado dessa pesquisa no Observatório Jovem Rio.

Seguimos da conversa com os professores para apresentação da pesqusa para estudantes do curso de Engenharia Agrícola, ainda na UFF.

A professora Ana Motta nos recebeu como se já nos conhecêssemos há anos e ela fez o histórico da região do SMSF e sobre a luta do Pólo Sindical: como surgiu a luta pelo reassentamento de Itaparica e a importante presença das mulheres; e ainda disse que, hoje, é uma mulher que coordena o Pólo Sindical: a Cassinha.

Os estudantes estavam atentos e fizeram perguntas direcionadas a nossa realidade quanto à violência contra a natureza e não só a violência armada; a expulsão de milhares de pessoas de suas terras para as construções das hidroelétricas; e os impactos ambientais.

Nesta apresentação percebi, que cada grupo, interpreta a nossa apresentação de acordo com sua visão de mundo - ou seja: eles percebem a violência contra a natureza, pois faz parte do cotidiano deles e do interesse do seu curso.

E, nesta noite, estivemos no lançamento do livro "Laudo multidisciplinar em conflito socioambiantal – O caso da reforma agrária no entorno da Reserva Biológica de Poço das Antas" da professora Ana Motta e fomos bem recebidos por elas e seus convidados.

Na sexta-feira, dia 18 de maio, apresentamos no escritório de
KOINONIA. O pessoal é maravilhoso! Estavam contentes com nossa presença e conhecê-los foi muito bom, pois apesar da distância trabalhamos juntos e estar nesse espaço proporcionou uma apresentação tranqüila e um diálogo aberto. O interesse deles era saber como é nossa experiência no Submédio São Francisco e de como: é esse trabalho de estarmos pesquisando e socializando; e saber como é aqui na capital do Rio de Janeiro e detalhes e sobre a viagem. As perguntas eram como o que estamos achando do Rio e o que fizemos de lazer, enfim foi muito bom dizer o que de fato fazemos.

Na manhã de sábado, fomos para o intercâmbio na comunidade do Alto da Serra do Mar, no povoado de Lídece, na cidade de Rio Claro, onde KOINONIA tem um trabalho de assessoria do Programa EGTE/TN com a assessora Ana Emília.

Foi uma das paisagens mais belas que vi! O impacto do clima foi o que mais me incomodou, pois tenho costume de sentir frio e apesar disso à forma simples de se viver me deu saudades de casa.

Os remanescentes de quilombo são muito acolhedores e me senti em casa. Eles nos levaram para passear, enquanto caminhávamos e tocávamos experiências, percebíamos a diferença regional.
Passeamos pela roça, conhecemos o espaço de plantação. Ao trilhar, na Mata Atlântica, percebi áreas devastadas, mas há também um projeto de revitalização realizado pelas entidades da região. Os quilombolas plantam o palmito para produção e outras plantas diversas para o reflorestamento. Achei muito interessante já que a caatinga também é muito devastada e não há um projeto assim, que eu conheça.

É um modelo de produção sustentável, as pessoas são comprometidas com o projeto, pois ensinam as crianças e jovens a manter esta atividade; tomar o gosto pela terra, valorizando assim sua cultura.

Fizemos um encontro com a comunidade e o Isaías deu as boas vindas nos apresentando a comunidade. Falou das associações que são: de produtores rurais e dos quilombolas, depois cada pessoa se apresentou. E começanos a apresentar a pesquisa. Eles não se interessaram muito pela violência, pois o lugar segundo eles não tem violência, mas eu percebi que a violência, que acho que acontece, é exatamente a luta pela terra. A Dna. Terezinha disse que a comunidade ainda correm perigo de perder suas terras para os grileiros. A terra que seus filhos nasceram e cresceram e que dá o sustento. O que eu percebo é que eles não percebem essa violência.

Uma semelhança é que eles também lutam pela terra e a nossa conquista - o reassentamento de Itaparica - e eles também buscam se manter na terra, em Alto da Serra do Mar.

Nosso objetivo foi além de mostrar os resultados da pesquisa mas também incentivá-los a se organizarem como juventude e manter a luta pelos direitos.

Ouvimos relatos de como foram discriminados quando eram crianças, na época da escola, mas hoje eles conhecem a lei contra o racismo e creio que o trabalho de KOINONIA venha a contribuir para essa formação cidadã. Agradeço aos quilombolas que estavam presente, pela receptividade e pelo maravilhoso almoço: Valeu a pena!

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A direção de KOINONIA o meu agradecimento pela possibilidade de fazer intercâmbio, aqui no Rio de Janeiro. Foi inesquecível! E, em especial a Priscila Chagas e Jorge Atílio Silva Iulianelli, que nos acompanharam nesse trabalho. O lazer que vocês nos proporcionaram. Isso contribuiu e muito para uma percepção de mundo ampla e mais solidária!
Aquele abraço!


Vânia Tatiane
Jovem jural e do Coletivo de Jovens do Pólo Sindical e estudande do curso de Pedagogia da UNEB.


Vânia Tatiane é do município de Jatobá do estado de Pernambuco

Um comentário:

mara vanessa disse...

Tatiane, seu texto está uma delícia de se ler e bastante equilibrado entre a narração do que aconteceu e suas reflexões - por sinal, reflexões muito boas. Isso que vocês diz, de que em cada lugar as pessoas viam a pesquisa pela ótica do que mais lhes interessava, é uma sacada muito boa. Olha, senti quase como se estivesse viajando com vocês e participando desses belos momentos de intercâmbio. Parabéns pelo texto, pela profundaidade da reflexão. Fico feliz por sua experiência e desejo tudo de bom pra você e pro coletivo de jovens aí. Um abraço, Mara Vanessa